Teu nome
Era noite de ano novo, a uma hora da meia noite. Estávamos ambas ali, festejando entre amigos, fazendo ecoar nas paredes da casa do André os nossos causos, as nossas sonoras risadas, as palavras que disfarçavam que fomos até ali extremamente sós. Eu no sofá puído da sala, de vestido amarelo. Tu no balcão da cozinha com um copo de uísque nas mãos. Em público a felicidade eletrizante. No íntimo o desalento. Meu olhar percorria perdido as decorações da casa sem saber que na verdade procurava o encontro do teu, mas quando achei teus olhos castanhos escuros encarando de volta minha timidez sorri meio de lado e ali soube. Desde então a cada vez que o timbre da tua voz distante enchia meus ouvidos, minha tez enrubescia como se cada pedacinho do meu corpo estivesse cem mil vezes mais sensível às tuas vibrações. Passei a te procurar em cada gesto, em cada olhar distraído para os lados, em cada passo rápido ou lento que passeava por ali. E todas as vezes, mesmo de longe, te encontrei. No minuto que antecede a virada estávamos todos reunidos próximo à sacada para soltarmos fogos e darmos vivas ao ano que se aproximava. As luzes, os barulhos, os sorrisos se misturavam e quando olhei ingênua para o lado tu estavas lá, ao alcance de um abraço que não-tão-timidamente te dei e que retribuíste com o feliz ano novo de praxe. Quantas vezes havíamos nos falado antes disso? O que não foi costumeiro foi aquele teu sorriso que me atingiu como um raio enquanto desatavas teus braços do meu pescoço e ajeitavas um cacho dos meus cabelos por detrás da minha orelha esquerda. O que aconteceu depois é um mero borrão anuviado de memória que se estende até as três e vinte e dois da manhã, quando a festa já tinha quase toda se esvaído e entrei na cozinha vazia para pegar um copo d'água. Te senti antes mesmo de te anunciares e depois do oi te encarei sorrindo, com o coração acelerado como que em presságio, pois mal tive tempo de perceber o que acontecia e meus cachos já estavam enrolados entre teus dedos na minha nuca, minha língua já entre teus lábios ávidos, quentes, ligeiros como se a qualquer segundo eu pudesse escapar do teu enlaço apertado da mão direita na minha cintura. Como se teu gosto me desse essa escolha. Minhas mãos perambulavam dos nós dos teus cabelos até o mais baixo das tuas costas enquanto teu toque firme me prensava contra as curvas do teu peito e procuravas com a perna o caminho entre minhas coxas. Estava hipnotizada. Arfante. Extasiada. Nos separamos apenas pelo instante de me levares até a parede dos fundos, donde não se via a sala, onde com gestos delicados fizeste do meu vestido adorno para os meus pés e desceste tua boca pelo meu pescoço, colo, mordiscando os meus peitos enquanto rias discretamente da minha vã tentativa de não gemer alto entre os lábios cerrados. Tua mão direita encontrou o interior das minhas coxas e a esquerda pousou apenas um dedo sobre meus lábios. Aquiesci com mais um gemido baixo quando tua certeza encostou no meu tesão e estremeci nos círculos dos teus movimentos enquanto cada onda me preenchia desde as pontas das minhas unhas que arranhavam tuas costas até a língua que passou a te buscar com a cobiça do orgasmo que muito-em-breve chegaria. Não queria que acabasse, porque dali a incerteza de nunca mais te ver me afligiria, mas não pude me conter quando teus dedos me possuíram e mordi teu pescoço sufocando o grito que se propagou pela tua mão quando te inundei. Dois. Suficiente. Demasiado. Amei. Sofri. Gozei. Olhei sorrindo nos teus olhos e disse o teu nome.
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