De Natal

E ai que no momento mais crítico de minha vida eu me vejo logo pensando em Natal... “É o nascimento do Senhor”, eles dizem. Ora, vá dizer isso ao mendigo que passa fome na rua no dia 25! Aliás, por que você não tira essas luzinhas cafonas da sua varanda e dá pro cheira-cola que estará nos degraus da igreja hoje à noite, pedindo “um extra pra minha ceia”? Sendo bom assim, Papai Noel não lhe dará carvão no lugar de seu Playstation, meu filho...
E ai de quem não dê o extra do pobre coitado... Se alguém o vir negando o pão ao irmão, pode dar “adeus” e “até nunca mais” à sua imagem tão minuciosamente construída de bom samaritano. Não, obrigado. Estou satisfeito com minha ceia composta de restos de missoshiro com coca-cola, assistindo sozinho aos filmes mofados da minha estante. Quem precisa de presentes quando se tem um apartamento em Copacabana e um pacote de Marlboro pra fazer companhia, hein?
Depois não me venha com essa de que sou muito “frio” e “insensível”. Se for assim que me sinto o ano inteiro, por que logo no Natal é que eu devo colocar um sorriso artificial no rosto e fingir que tudo está bem e que amo as pessoas como irmãos? Nem os meus parentes de sangue eu amo, se lhe interessa saber. São todos de sangue ruim, se reunindo uma vez ao ano para comer peru e se esfaquear pelas costas. Não quero isso pra mim. Não, senhor.
A única pessoa que me acendia algo no peito, que me fazia ter esperanças de que viver não é só dor, afinal, Papai Noel levou há exatos três anos. Sem ela que outro prazer há no mundo? Que devo eu ao “bom velhinho” traiçoeiro? Ah, vá encher a paciência de outro com suas histórias sobre Reis Magos e estrelas guias! Tenho mais o que fazer.

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