Lembranças nunca morrem
A noite estava quente, o dia fora longo e cansativo... Eu havia acabado de chegar à minha casa e, como estava só, resolvi me presentear com um relaxante banho gelado. Entrei no quarto, largando a bolsa e os sapatos em um canto qualquer, e caminhei até o banheiro, despindo-me no meio do caminho.
A blusa caiu no meio da sala, a saia suavemente chegou ao chão no centro do corredor, o sutiã achou seu caminho rumo ao assoalho bem na porta do banheiro, porém permaneceu do lado de fora deste, ao contrário de minha calcinha. Liguei o chuveiro, mas voltei para apreciar as marcas do tempo em meu rosto, frente ao espelho. Olhando em meus olhos, consegui reconhecer resquícios daquela adolescente risonha e amável que eu havia sido... Entretanto, aquelas suaves rugas que insistiam em aparecer, ainda tão precocemente, me mostravam o quanto as coisas haviam mudado desde então.
Deixando as reflexões de lado, entrei no chuveiro e deixei a água gelada percorrer meu corpo, sentindo como se um peso estivesse sendo lavado de minha alma, ralo abaixo. Exausta, sentei no chão, com as pernas cruzadas, e coloquei as mãos sobre os olhos... Primeiro, uma luz fez latejar minha cabeça, mas logo a escuridão sobreveio e consegui relaxar por alguns minutos naquela posição.
Comecei, então, a ouvir um barulho de ventania, um pouco ao longe... Não lhe dei muita atenção, até que o som começou a se aproximar. Em instantes, os uivos do vendaval enchiam minha cabeça e um alarmante calafrio percorreu meu corpo inteiro! Não consegui me mexer. Percebi uma luz forte surgindo à minha frente e, impulsionada por um surto de coragem – ou de pânico? – tirei as mãos dos olhos para observar a parede branca do banheiro silencioso à minha frente.
Trêmula, levantei-me e abandonei as costas na parede gelada. Não compreendi o que fora aquele repentino surto, meio psicótico, talvez seja o estresse... Já mais calma, peguei o sabonete e, de olhos fechados, comecei a esfregá-lo suavemente nos meus braços, ombros, pescoço... Abri os olhos, terrificada. Minhas mãos não estavam mais se mexendo! Forcei o seu movimento, mas senti como se alguém estivesse segurando meus pulsos, com força, impedindo que eu me soltasse!
Afastei-me da parede, mas estaquei como se houvesse perdido o controle sobre todo o meu corpo. Para aumentar minha angústia, meu cabelo foi puxado para trás, fazendo minha cabeça se virar dolorosamente! Agora eu já gemia e ofegava de pavor, enquanto minhas mãos se moviam sozinhas pelo resto do meu corpo, acariciando-o lentamente. Passaram por meus seios, minha barriga e desceram para minhas coxas, onde começaram a apertar as unhas contra minha própria pele. Moveram-se, então, para a parte interna de minhas pernas, subindo devagar, arranhando, me fazendo lagrimar. Antes que atingissem o seu - suponho -objetivo final, fui impelida contra o chuveiro que agora jorrava uma água fervente que me queimou as brancas carnes.
Tomada por um terror que ultrapassava os limites humanos, consegui fechar o chuveiro e saí do banheiro tropeçando, me arrastando pelo chão, sem conseguir enxergar direito devido ao enorme volume de lágrimas que me saltavam dos olhos! Cheguei ao quarto e me joguei na cama, abraçada ao travesseiro não conseguia controlar as lágrimas ou o medo que me afligiam. As luzes começaram a piscar e eu só conseguia emitir um soluçante “Não... Por favor! Não...”. Finalmente as luzes se apagaram e eu usei meu último sopro de coragem para olhar para a escuridão à frente.
Sentindo uma mistura de pânico e asco observei surgir a figura iluminada e nebulosa de um velho maldito. Em seu olhar havia o mesmo misto de malícia e demonização que eu jamais esquecera! Agonizando em minha cama, me senti novamente aquela criança de quatorze anos, indefesa, abandonada, e não consegui reagir. Fiz somente o que havia feito na vez em que conheci aquele velho condenado: chorei e gritei até atingir o esgotamento. Depois dormi...
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