Sonho (Parte I)

Fumando um cigarro aos pés de la Tour Eiffel, eu observava a neve cair, como flocos de melancolia, inundando o parque e maravilhando aquele bando de turistas. Ah, a "neve francesa" deve parecer tão especial para eles, como se não fossem apenas cristais de gelo... Sentindo um repentino calafrio, notei que meu sobretudo, outrora marrom, estava ficando gradualmente branco e úmido. Sacudi-o, bem como a meus pensamentos, e fui me aquecer no Café mais próximo.

Eu estava com 29 anos e o céu escurecia rápida e precocemente naquela tarde. Meu marido e as nossas pequenas gêmeas haviam ficado em casa, bem aquecidos e confortáveis, enquanto eu ia tratar de alguns assuntos - o eterno business! - na parte histórica da bela Paris.

Sentei-me no balcão e pedi um café, depois apaguei o cigarro e observei, através da janela, a neve cair... O som da porta me chamou a atenção e me virei para ver entrar um rosto encoberto por um grosso cachecol. Antes de sentar, a pessoa tropeçou e derrubou a cadeira. Dei uma risada e fui ajudar a levantar o objeto. Ao posicionarmos a cadeira na posição correta, minha mão encostou na dela e nossos olhos se fitaram. Instantaneamente, seu rosto foi tomado por um intenso rubor e - não sei se por costume ou instinto - ela virou o rosto para não me encarar. 

Não te reconheci de imediato, mas pude ver em teus olhos que, em algum lugar do passado, havíamos compartilhado algo especial... Arrisquei um nome e um sorriso de dúvida e retiraste o cachecol, me sorrindo de volta, meio assim de lado... Quase não acreditei! Enquanto gaguejavas um suave "há quanto tempo...", eu te abracei e me senti em paz. Realmente havia tempo que não nos víamos, que não nos falávamos, que tínhamos nos deixado... Mas não tempo o suficiente para me fazer esquecer um amor como o nosso: o primeiro.

Te convidei para sentar e conversamos tanto! Falamos sobre a vida, sobre a neve, as cores, a ciência, o presente, a saudade... Quando dei por mim já eram quase 11 horas e eu tinha de voltar para casa. Na saída, te convidei para ir até a minha casa, no dia seguinte. Aceitaste, com um sorriso lindo no rosto, e me puxaste pelo braço para sussurrar em meu ouvido: "Eu senti a tua falta...".

Segurei teu rosto entre minhas mãos e respondi: "Eu também senti a tua.", depois te soltei e caminhei para meu carro. A saudade me inundava, junto com a percepção de que ainda és a pessoa que me consegue me fazer feliz só com um olhar. A noite ia alta e a neve caía como flocos de felicidade...

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