De adeus e receio
Olho no relógio, são exatamente 00h02min. Fecho os olhos. Respiro fundo. Sinto o pulsar, já enfraquecido, do meu coração... Procuro perceber a posição de cada parte de meu corpo, para ter a - breve - ilusão de que estou inteira, enquanto por dentro sei que estou quebrada.
Abro os olhos e observo. A luz é fraca e meus olhos acostumam-se lentamente à penumbra... Olho minhas roupas jogadas sobre a cadeira, meu lençol sobre a cama, amassado e solitário, sem ter um corpo para aquecer... Olho meus livros empoeirados na estante, minha foto de criança pendurada na parede e, enfim, o meu reflexo na tela escura da TV.
Mas tudo o que vejo são sombras, que logo vão ficando turvas por causa das lágrimas que de meus olhos escorrem, saltam - desesperadas! - para fora, talvez buscando fugir de meu interior ferido... E que se arrastam até tocarem em meus lábios, deixando neles um gosto salgado, mas também acre, de dor.
As imagens que me vem a cabeça são sempre as mesmas: teus olhos castanhos e tristes me encarando, tua boca fina murmurando as últimas palavras de adeus, minhas mãos desesperadas tentando te impedir de partir, meus olhos encharcados, suplicantes e incrédulos, sofrendo ao te ver dar as costas e não olhar pra trás!
E tudo isso dói, faz sangrar o peito! E o sangue é tanto que transborda por meus olhos agora! E a dor é tanta que me faz querer acabar com tudo, entregando-me nos braços frios e acochegantes da morte... Imagino se um dia isso irá passar. E sonho com o dia glorioso em que me sentirei forte, ou inteira, o bastante para poder voltar a amar...
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